sexta-feira, 28 de julho de 2017

O purê de batatas e o mundo desajeitado



Leandro Marçal*

Morar em uma grande avenida é um suplício. Quando saio de carro, dou de cara com o trânsito sempre frenético, sem cerimônia. Meu vizinho, para piorar, estaciona seu velho carro vermelho colado ao término da nossa guia rebaixada, tampando a visão de uma subida chata onde os veículos surgem de repente, o que me obriga a apelar para uma ajuda do pai ou da mãe para não causar um acidente.

— Vai, eles gritam.

Saio de ré e manobro rumo a algum lugar em que a chegada por transporte coletivo é mais difícil ou quando vou chegar numa das madrugadas de antes de chegar aos 30 anos.

Não sou um grande fã de dirigir. Meu pai ama. Quando minha mãe está a seu lado, ele simula manobras arriscadas para rir de seus projetos de gritos de medo, que os faz lembrar um velho hábito de meu falecido avô taxista e brincalhão.

Os costumes automotivos são só uma das tantas manias diárias que os velhos usam para jogar na minha cara, com muita sutileza e lirismo, a minha completa inapetência para quase todas as tarefas humanas que envolvem coordenação motora.

Como o purê de batata e o painel. Não sei qual a mágica, toque especial ou dom que minha mãe tem para fazer de uma viscosidade - algo mais importante do que a mistura - o almoço de sábado. Mesmo dia em que meu pai se irritava, pois o montador de móveis não apareceu para tirar a TV da sala de cima do rack e montar logo o painel novo, comprado na segunda-feira. Não fossem as ameaças da minha mãe, ele teria montado aquele treco – palavras dele – em uma manhã sem futebol nesses canais de TV por assinatura, que transmitem tudo ao vivo.

Meu pai é daqueles que tem na caixa de ferramentas os instrumentos necessários para a criação de outro mundo, caso houvesse um replay do dilúvio. Ela é das que mantém cinco panelas no fogão de quatro bocas, enquanto atende um vendedor chato no portão e acha um par de meias perdido há três dias em questão de segundos.

Tenho o costume de espalhar fumaça quando frito um bife e não sou entusiasta de trabalhos braçais e manuais. Admiro quem possua esses dons por mim tão inalcançáveis quanto correr uma ultramaratona.

Sou do grupo de pessoas que andam dez metros e derrubam algo ou tropeçam em algum espírito invisível. Ao mínimo barulho estrondoso lá embaixo, minha mãe pergunta se estou bem e o que quebrei, enquanto meu pai dá risadas no sofá da sala, agora com painel e a TV na mesma parede da porta de entrada.

Eles dizem que se houvesse uma máquina semelhante à Matrix ou Avatar, eu seria o primeiro a comprar e a usaria nas tarefas desafiadoras aos desajeitados como o filho deles. Também falam que é melhor eu me dedicar a essas coisas que eu faço no computador, se não quiser morrer de fome.

Eu dizia sempre que era melhor eles aprenderem a diferença entre notebook e tablet para não ficarem tão atrasados, com um tom de sarcasmo.

Dia desses, perguntei o placar do jogo. Eles nem sabiam, de tão viciados que estavam no jogo de paciência. Cada um em um notebook diferente, enquanto os apitos no aplicativo de mensagens soavam e a mãe reclamava dessas correntes chatas.

Quando eles fecharam o portão para mais uma noitada com “se cuida, filho” e conselhos pedindo juízo, pensei nos tempos em que minha mãe não conseguia achar o botão de ligar o videocassete e meu pai não sabia a diferença entre e-mails e sites.

Eles aprenderam. Eu ainda não sei o ponto de um bom purê de batatas.

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", realizado em julho, no Lobo Estúdio, em Santos.

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