segunda-feira, 31 de julho de 2017

O condomínio dos meus sonhos


Um desejo de longo prazo (Foto: Prefeitura da Praia Grande)

Maria Bernadete Bernardo*

O anseio de ter a casa própria me castigou por muitos anos. Era como a sombra que persegue o corpo e basta uma luz, e ela se mostra.

Nessa época, fui trabalhar no Humaitá e morava em São Vicente. O único acesso para o meu trabalho era pela Praia Grande. Estou falando da década de 80, e as ruas eram de terra batida e esburacadas. Saia muito cedo de casa para pegar a condução, antes mesmo de o sol sair. Esse trajeto era feito quase numa penumbra.

Numas das primeiras idas, notei um portal majestoso com muros altos e imaginei ali um condomínio fechado, luxuoso, mesmo não sendo possível avistar as casas do lado de dentro por causa do muro alto. Minha imaginação viu jardins, floreiras nas janelas e até um parque para as crianças com gangorras e balanços.

Passei a ser uma admiradora daquela morada porque trazia na frente o nome do condomínio. Para mim, aquele nome carregava a conotação de paz e harmonia entre os moradores. Suspirava toda vez que passava em frente e pensava: Quem sabe um dia poderei comprar uma casa ali.

Depois de muitos anos, realizei meu sonho, e vim morar em Praia Grande; não naquele condomínio luxuoso, num outro bem mais simples. Para me familiarizar com a cidade, resolvi andar pelas ruas que estavam bem diferentes agora e fui até o tal condomínio fechado.

Avistei logo a bela fachada, notei que as árvores tinham crescido, estavam encopadas e muitos carros estacionados na rua, o que me levou a pensar ainda mais no luxo que era lá dentro. Ao me aproximar, notei um entra e sai de pessoas e uma sala para cada lado, ali mesmo, na entrada, com um amontoado de gente. Alguns conversavam naturalmente e outras choravam. Virei o olhar e avistei - próxima a parede dos fundos - um caixão.

Fiquei meio atordoada! Mas não tinha tempo para fricote e logo me refiz; foi aí que me dei conta que, na verdade, o condomínio fechado que trazia o nome “Morada da Grande Planície” é o cemitério da cidade de Praia Grande. Minha falta de atenção impediu de perceber isso.

Ontem, antes de entrar em casa, peguei na portaria a correspondência e havia um boleto do Plano da Assistência Funeral que pago há anos e aí pensei: não é que ainda vou morar naquele condomínio?

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", realizado em julho, no Lobo Estúdio, em Santos. 

Um amor português, há 21 anos


A festa depois do acesso à Primeira Divisão do Campeonato Paulista
(Foto: Silvio Luiz/Arquivo - A Tribuna)
Marcus Vinicius Batista



Acordei cedo naquele domingo de folga. Tinha um compromisso às 10 horas, a chance de presenciar um fenômeno único. A manhã nublada de 21 de julho de 1996 seria o dia em que meu time de coração (e quem defendi a camisa como goleiro amador por três anos e meio) poderia voltar à primeira divisão do Campeonato Paulista. 

A Portuguesa Santista enfrentaria o Ituano no Estádio Ulrico Mursa e um empate empurraria de novo para a elite do Estado, lugar que esperava ocupar desde 1978, quando foi rebaixada. 

Tomei o ônibus e desci perto do campo. Andei duas quadras e, pelo trajeto, percebi de longe o óbvio: a casa estaria cheia. Soube depois que eram oito mil pessoas. 

Como não cheguei tão cedo, as arquibancadas já estavam lotadas. Percorri a beira do alambrado, do lado do canal 1, passei pelas cabines de rádio e TV e consegui lugar, em pé, perto do gol oposto à entrada, gol que seria defendido por Claudinei (hoje Claudinei Oliveira, técnico) no segundo tempo. 

Assisti ao jogo com a barriga encostada na grade. Do meu lado, três amigos do tempo de faculdade: Ricardo Goya, o único ponte-pretano caiçara, Cláudia Castro, os dois meus colegas na extinta TV Mar; e André Argolo, hoje parceiro de aventuras literárias e, na época, repórter do Diário Popular. 

O jogo estava amarrado, típico da segunda divisão, coerente com uma vaga para o acesso. O time da Briosa era quase todo caiçara, com gente da terra, o que aproximava jogadores e torcida. Para mim, era um degrau acima na escada da afetividade. 

O volante Léo, por exemplo, havia sido revelado pelo Santos. Fomos contemporâneos no curso de Jornalismo e treinamos juntos no clube da Vila Belmiro. Léo se profissionalizou, e eu virei jornalista. Hoje, jogamos futebol society de vez em quando. E conversamos sobre política, com afinidades ideológicas. 

O time também tinha o Beto e o Calazans, que se criaram no futebol de salão da cidade. E muitos veteranos, como Toninho Carlos, Fernando, Paulo Róbson e Márcio Fernandes, que foram revelados pelo Santos, mais Balu, que jogou no Cruzeiro e é nascido em São Vicente. 

Ah, e tem o Célio, que defendeu a Portuguesa de Desportos naquele time vice-campeão Paulista de 1985. Ele perdeu um pênalti no segundo tempo, defendido com os pés por Nilton. 

Do outro lado, no Ituano, só me lembro mesmo do goleiro Nilton. Ele era excelente goleiro, mas deu o azar de passar pelo Santos nos tempos de Rodolfo Rodriguez. Até Taffarel e Marcos, do Palmeiras, seriam reservas do uruguaio. Nilton era do tempo em que eu, moleque de 12, 13 anos, ia à Vila Belmiro para ver goleiros, principalmente o Rodolfo, mesmo sendo corintiano. 

O segundo tempo, não bastasse o pênalti perdido, parecia pior. Poucas chances de gol, o tempo nublado não ajudava o gramado, castigado por chuva no dia anterior. Muito barro no centro do campo e nas grandes áreas. Claudinei foi afastar uma bola recuada e a bola foi para trás. Um escanteio e quase gol. 

Aos 27 minutos do segundo tempo, um escanteio a favor da Briosa, no lado esquerdo do ataque, no sentido oposto ao que estávamos. Eu usava minha altura, esticava a cabeça para tentar ver o lance. O escanteio foi batido no primeiro pau. Um jogador da Briosa e outro do Ituano foram para a bola. Os dois furaram. 

A bola atravessou a pequena área, tirou Nilton do lance e sobrou para o zagueiro Otacílio que, de cabeça, sozinho, a dois metros do gol, marcou. 1 a 0. Primeira divisão à vista. A ironia é que Otacílio havia entrado no jogo pouco antes, em substituição ao Fernando, que se machucara. Fernando voltou ao futebol depois de 14 meses de aposentadoria para ajudar o time onde começou. 

Eu, Goya, André e Cláudia nos abraçávamos e pulávamos no espaço limitado e espremido do alambrado. Mal sabíamos que seriam 20 minutos de roer todas as unhas de ansiedade. A Portuguesa Santista fez o óbvio: encolheu-se na defesa para segurar o resultado. Segunda Divisão, meu amigo, é chute com o nariz apontado para o canal 1. 

Léo, que naquela manhã era o clássico volante camisa 5, corria por todos os lados. Não precisava de técnica. Precisava de disposição e vontade de destruir as jogadas do Ituano. Jogou como poucas vezes o vi atuar. 

Naqueles 20 minutos, a Briosa faz jus ao apelido. A cada chutão do Ituano para a grande área, a defesa aliviava, Claudinei segurava em um, dois, três tempos, se fosse necessário. O Ituano chegou a marcar um gol, anulado por falta no goleiro adversário. 

Vibramos e cantamos com outros torcedores depois que o juiz terminou o jogo. Não me lembro com exatidão sobre o que conversamos, se é falamos alguma coisa séria e digna de registro na memória. 

Sete anos depois, testemunhei pela TV a presença da Briosa contra o São Paulo, pelas semifinais do Campeonato Paulista. Pude, em 2014, relembrar daquela temporada com o técnico na ocasião, Seo Pepe. 

Outros sete anos depois, levei minha filha Mariana ao estádio Ulrico Mursa pela primeira vez. A Portuguesa empatou com o Força, num jogo horroroso também em um domingo pela manhã. Os dois morreram abraçados e caíram para a quarta divisão do Estado. 

Agora, a Portuguesa está na Série A-3, onde acabou entre os oito melhores. Em 2016, venceu o campeonato da quarta divisão, quando pude testemunhar o título, retornando ao Estádio Ulrico Mursa, seis anos depois. 

Repetir uma emoção - na verdade, fingir, porque é experiência única - seria uma renovação de amor. Só isso move, voluntariamente, alguém a ir a um estádio num domingo de manhã.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

O purê de batatas e o mundo desajeitado



Leandro Marçal*

Morar em uma grande avenida é um suplício. Quando saio de carro, dou de cara com o trânsito sempre frenético, sem cerimônia. Meu vizinho, para piorar, estaciona seu velho carro vermelho colado ao término da nossa guia rebaixada, tampando a visão de uma subida chata onde os veículos surgem de repente, o que me obriga a apelar para uma ajuda do pai ou da mãe para não causar um acidente.

— Vai, eles gritam.

Saio de ré e manobro rumo a algum lugar em que a chegada por transporte coletivo é mais difícil ou quando vou chegar numa das madrugadas de antes de chegar aos 30 anos.

Não sou um grande fã de dirigir. Meu pai ama. Quando minha mãe está a seu lado, ele simula manobras arriscadas para rir de seus projetos de gritos de medo, que os faz lembrar um velho hábito de meu falecido avô taxista e brincalhão.

Os costumes automotivos são só uma das tantas manias diárias que os velhos usam para jogar na minha cara, com muita sutileza e lirismo, a minha completa inapetência para quase todas as tarefas humanas que envolvem coordenação motora.

Como o purê de batata e o painel. Não sei qual a mágica, toque especial ou dom que minha mãe tem para fazer de uma viscosidade - algo mais importante do que a mistura - o almoço de sábado. Mesmo dia em que meu pai se irritava, pois o montador de móveis não apareceu para tirar a TV da sala de cima do rack e montar logo o painel novo, comprado na segunda-feira. Não fossem as ameaças da minha mãe, ele teria montado aquele treco – palavras dele – em uma manhã sem futebol nesses canais de TV por assinatura, que transmitem tudo ao vivo.

Meu pai é daqueles que tem na caixa de ferramentas os instrumentos necessários para a criação de outro mundo, caso houvesse um replay do dilúvio. Ela é das que mantém cinco panelas no fogão de quatro bocas, enquanto atende um vendedor chato no portão e acha um par de meias perdido há três dias em questão de segundos.

Tenho o costume de espalhar fumaça quando frito um bife e não sou entusiasta de trabalhos braçais e manuais. Admiro quem possua esses dons por mim tão inalcançáveis quanto correr uma ultramaratona.

Sou do grupo de pessoas que andam dez metros e derrubam algo ou tropeçam em algum espírito invisível. Ao mínimo barulho estrondoso lá embaixo, minha mãe pergunta se estou bem e o que quebrei, enquanto meu pai dá risadas no sofá da sala, agora com painel e a TV na mesma parede da porta de entrada.

Eles dizem que se houvesse uma máquina semelhante à Matrix ou Avatar, eu seria o primeiro a comprar e a usaria nas tarefas desafiadoras aos desajeitados como o filho deles. Também falam que é melhor eu me dedicar a essas coisas que eu faço no computador, se não quiser morrer de fome.

Eu dizia sempre que era melhor eles aprenderem a diferença entre notebook e tablet para não ficarem tão atrasados, com um tom de sarcasmo.

Dia desses, perguntei o placar do jogo. Eles nem sabiam, de tão viciados que estavam no jogo de paciência. Cada um em um notebook diferente, enquanto os apitos no aplicativo de mensagens soavam e a mãe reclamava dessas correntes chatas.

Quando eles fecharam o portão para mais uma noitada com “se cuida, filho” e conselhos pedindo juízo, pensei nos tempos em que minha mãe não conseguia achar o botão de ligar o videocassete e meu pai não sabia a diferença entre e-mails e sites.

Eles aprenderam. Eu ainda não sei o ponto de um bom purê de batatas.

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", realizado em julho, no Lobo Estúdio, em Santos.

Minha religião


Marcus Vinicius Batista

Levantei apressado. Tinha perdido a hora. Deve ter sido a insônia, que insistiu em ficar até às três da manhã. Ainda bem que tinha deixado pronta, na sala, a roupa da missa.

Hoje é dia de rezar. Caminhei as dez quadras preocupado porque perderia parte da oração. Pela fé, madrugo sem reclamar, chego ao templo sem tomar café, ansioso para conhecer a nova casa do Senhor.

Quando virei a esquina, escutei o falatório. Muitos louvavam à Ele, pulavam e corriam diante do evangelho. O culto era a céu aberto. Senhoras observavam do ponto de ônibus. Três operários assistiam e conversavam sobre a palavra ali pregada.

Motoristas de carros, passageiros de ônibus aproveitavam o semáforo vermelho, na avenida Afonso Pena, para dialogar com os fiéis. Um ajudante de caminhão de refrigerantes começou a narrar um trecho da celebração. Sorria e vibrava com a força da palavra àquela hora da manhã.

O diácono Carlos Júlio, um dos comandantes do culto, acenava de volta, agradecendo pela simpatia e pela demonstração de credo e solidariedade. Aliás, a ideia de levantar uma nova casa de oração foi dele, junto com o irmão - de fé e de sangue - Gabriel.

Éramos cerca de 20 fiéis, número impressionante para a cerimônia de estreia, ainda mais às 7h30 de sexta-feira. O amor à Deus era tamanho que a hóstia, de formato arredondado, passava de pé em pé em comunhão. Apenas três sujeitos foram escolhidos para apanhá-la com as mãos. Pecadores ou privilegiados, eu não sei. Orgulho-me de ser um deles.

Apanhar a hóstia com as mãos significa, pela liturgia, deitar ao solo para agradecer as oferendas. Em outras situações, caímos ao chão para exorcizar o mal que nos acompanha. Dizem que se trata de sacrifício, pois nunca vamos protagonizar o culto. Nosso trabalho é manter nossos irmãos esperançosos pela vitória, escrita em tinta branca na grama, ainda que sintética, enquanto afastamos os adversários da palavra sagrada.

O pastor Lalá, o líder da congregação, apenas acompanhava de fora. Sábio, ele prefere observar com a serenidade de quem, aos 81 anos, carrega nos braços as experiências únicas de conviver com príncipes e reis por conta da religião.

Alguns do fiéis eu conheci hoje. Ainda desconheço os nomes de uns três ou quatro. De fato, nomes parecem secundários diante das lições religiosas, demarcadas em minutos e capaz de nos unir em torno Dele. A doutrina é relativamente simples, mas não dogmática. Como qualquer outra, possui um livro de ouro, com 17 mandamentos, porém sujeitos a interpretações em casos duvidosos.

Nossa religião não segrega - sei que todas pregam o mesmo discurso -, mas os fatos estão aí para empreender o milagre. Brancos, negros, altos, baixos, ricos e pobres, adeptos de outras formas de fé, todas - dentro do templo - tem a mesma função. Sem cargos, sem hierarquia, sem disputas obsessivas de poder.

O culto é rigoroso em certos aspectos. Talvez seria melhor dizer disciplinador. A celebração acabou às 8h30 em ponto. Todos devem seguir a rotina de trabalho, de crença na salvação. Antes, contudo, era a hora de dividir o líquido que simboliza a confraternização entre os homens. Hoje, não era hora nem lugar para o tradicional vinho. A fé foi renovada da mesma maneira, com sucos e água. Na mesa, o milagre da multiplicação das maçãs.

Sai do templo cansado, mais por responsabilidade minha, mas renovado pelas palavras do Deus-Bola e ansioso pelo culto da próxima sexta-feira. Apenas lamento que não posso comparecer a outros horários de pregação, mas sigo louvando minha religião desde que me conheço por gente.

Encontrei a palavra do Senhor e sua ressurreição no Templo do Futebol. Aleluia!!!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Zenório, o cunhado


Sonele Fábia Silva*

Quando Deus instituiu a família, não contava com as pedras do caminho: os cunhados, irmãos do pai ou da mãe. Ah, esses sim, são um pesadelo. O Zenório é o típico cunhado chato, lembra muito uma puta arrependida, sabe aquelas que fizeram merda a vida inteira e resolvem se redimir e, a partir daí, tudo o que os outros fazem é errado.

O cara parece que dorme pensando no que vai fazer para atormentar no dia seguinte. Mas ele não era assim não; ficou assim, o que aconteceu com ele foi um processo de metamorfose.

O Zenório passou a vida bebendo, sorrindo, trabalhando; de repente, o cara resolve se aposentar. Deu merda. Às vezes, tenho a impressão de que aposentar não é algo tão interessante, principalmente quando ela chega ou transforma o aposentado num chato ou mata o pobre que não pode nem usufruir daquele dinheiro. Pois é, com o Zenório matou não, o cara ficou chato, parece até que fez cursinho de especialização em chatice.

Ele ficou tão complexo depois da aposentadoria que viajar de São Paulo a Santos para passar apenas dois dias é sinal de duas malas, desnecessárias, porque ele nem banho toma nesses dois dias de estadia.

Como todo cunhado, ele é espaçoso e mala é mala, serve para ocupar espaço. Junto, vem a sinfônica de Zenório: o RONCO. O ronco dele é tão significativo que, para ouvi-lo, é só passar na frente do prédio e pronto: saberá que o cunhado da vizinha chegou para passar dois dias, e sem aviso prévio.

Ele avisa quando virá? Claro que não. Ele só ronca à noite? Ele só precisa sentar para roncar. Quem sofre com tudo isso é a gata que dorme, ou tenta dormir, na sala. Se ela falasse, contaria o pesadelo que é passar a noite com o Zenório. Além de roncar, ele fala dormindo, esticado no sofá sem dó, como se estivesse no cinco estrelas do Plaza.

Ele não come qualquer coisa, se acha no direito de escolher cardápio. O prato preferido dele é batata, a batata pode vir do jeito que for, que venha a batata, dançando can can, mas que seja batata. A vantagem é que, dependendo da época, o preço da dita é razoável.

O Zenório não foi sempre assim não. Ele sorria, bebia, brincava, trabalhava, quando percebeu que estava cansado e precisava parar. Só não entendeu que a parada deveria estar relacionada somente ao ofício, e não à vida social. Ele parou de trabalhar, brincar, beber e de sorrir.

Quando Deus instituiu a família, não contava com esse imprevisto, logo deu o nome de Cunhado ao acessório familiar. Se fosse bom, não começava com Cu e, com certeza, toda a família deve ter um.

* Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho no Lobo Estúdio, em Santos. 


Um viciado em crise




Marcus Vinicius Batista

Descobri, esta semana, que sou um viciado. Sempre neguei o fato, projetei em pessoas próximas, critiquei desconhecidos, nunca quis conversar sobre o problema, mas tenho que admitir com todas as letras: sou um dependente.

As desculpas foram as mais variadas. Doses recreativas, reuniões com os amigos, vida social dentro da família. Rebolava para que ninguém percebesse no ambiente de trabalho. Cumpria as tarefas de madrugada, escondia o cansaço de poucas horas de sono, mascarava a irritação de estar exausto com o silêncio que parecia concentração.

Nesta semana, atingi o auge da crise. Acordei suado durante a madrugada, após um pesadelo em que ficava impossibilitado de usar meu remédio. Ontem, pela manhã, levantei duas horas mais cedo do que o normal. Insônia. Andei sem rumo pelos cômodos do apartamento. Olhava para o gato e jurava entender o que ele me dizia. Voltei para a cama e rolei até desistir e me levantar de novo. Poderia suprir meu problema – nem o entendia assim até então – com uma dose na hora do almoço.

Preocupado com o horário, quase me esqueci que iria almoçar com minha mulher. Era na mesma hora em que bastaria apertar o botão e conseguir uma dose cavalar. Uma hora e meia, duas horas talvez de viagem, de alucinações em velocidade, de múltiplas emoções, de variadas cores e origens.

Passei a tarde com suores estranhos. Corri para casa no final do dia. Tinha a sensação de que, sozinho, poderia entender melhor o que acontecia e me controlar. Nada. Sozinho, sem apoio pessoal ou profissional, apliquei-me outra vez. Alívio imediato. Uma droga meio belga, meio americana, que me conduziu a momentos que julgava únicos no passado.

Não poderia imaginar com seriam as últimas 36 horas. Sem pílulas, fornecedores de folga, programação suspensa. Nada que pudesse compensar o efeito tão prazeroso, principalmente dos últimos 10 dias.

Este testemunho talvez compense. Talvez sirva para que alguém se sensibilize. Temo entrar em estado de delírio. Mas me lembrei de que amanhã é sexta. Um novo suprimento estará disponível na hora do almoço. Para dar conta até lá, resolvei jogar bola com amigos. Dizem que exercício ajuda a superar a abstinência e a esquecer o que artificialmente nos move.

Faço um apelo, por favor, àqueles que gostam de mim: nunca me deixem uma semana sem seriados. E não aceito política de redução de danos. Ou internação compulsória. 

O dia em que joguei na Vila Belmiro




Marcus Vinicius Batista

O lateral-direito do Santos, Tim, vai ao ataque, recebe a bola, olha para os atacantes e cruza para dentro da área. O chute sai errado e toma a direção do gol. Cheiro de gol espírita, de sorte. O goleiro da Portuguesa Santista dá quatro, cinco passos para trás e se posiciona para projetar o corpo e fazer a defesa, sem rebote.

Com a bola nas mãos, percebi Paulo, um dos zagueiros gêmeos, livre de marcação. Sai jogando com ele para aliviar a pressão irregular dos últimos minutos. Ao retornar para a entrada da pequena área, cruzei o olhar com o de Nei, treinador de goleiros do profissional do Santos. Ele estava atrás do gol e me disse: "Excelente defesa, garoto!" Sorri e agradeci.

A noite de quarta-feira era muito fria. Tinha chovido durante a tarde, e o gramado da Vila Belmiro estava, em alguns pontos, escorregadio. A defesa aconteceu mais ou menos na metade do segundo tempo, no gol da entrada principal, com parte da torcida organizada já presente nas arquibancadas.

O primeiro tempo parecia jogo com portões fechados. Poucos chegariam cedo para ver o amistoso entre Santos e Portuguesa Santista, categoria sub-15, preliminar da partida entre Santos e Internacional de Limeira, pelo Campeonato Paulista de 1990.

Para nós, do outro lado do canal, o jogo era único. 1) enfrentar o Santos; 2) na Vila; 3) antes de um jogo profissional. No final, cinco mil pessoas assistiram à molecada ou, sendo honesto, esperaram o Santos em péssima fase, naquela entressafra do final do século 20. Era o sexto dos 18 anos sem títulos importantes.

Soube do convite para o amistoso duas semanas antes. Não sabia se jogaria porque a Briosa formaria um combinado entre atletas de 15 a 17 anos. Como eu tinha 15, provavelmente sobraria. Os mais novos costumam esperar e depois repetem o processo ao envelhecerem. No máximo, eu esquentaria a bunda no banco de plástico. Qual a chance de um goleiro entrar durante uma partida de futebol?

Minha esperança era que, de vez em quando, treinava na categoria de cima, principalmente durante as férias escolares. O técnico Zé Luiz, o Galo, me chamava para jogar com atletas maiores e mais rápidos, talvez porque eu já tivesse 1,85 metros. Ou para completar como goleiro do time reserva.

Pisar na Vila Belmiro seria o auge para um doente por futebol, obcecado com o sonho de ser jogador. Fora a escola, em que tirava notas altas para treinar e competir em paz, o resto do tempo era futebol. Jogava futsal no Saldanha (mais o campeonato interno no campo), no time da classe, da molecada da rua, dos zeladores da mesma rua, no society do Banespa, na turma da praia, e também as participações free-lancers. Chegava a jogar todos os dias da semana, às vezes dois períodos.

Quando faltava uns dois, três dias para o amistoso, o técnico me chamou de canto e disse sem rodeios: "você vai jogar, tranquilo?" Gaguejei e respondi em seis sílabas: "Tranquilo, professor!"

Confesso que me esqueci da maioria dos nomes dos colegas daquela noite. Muitos ainda vejo na rua, com os cabelos embranquecendo. Lembro-me dos zagueiros gêmeos, Marcos e Paulo, seguros quando juntos. Parecia uma simbiose, um cordão umbilical invisível que os tornava de total confiança. Soube, anos depois, que foram trabalhar em bancos. Ou viraram advogados?

Na meia, o Daniel, amigo de adolescência e também companheiro de viagens de bicicleta, da Ponta da Praia até o Estádio Ulrico Mursa, onde treinamos e jogamos por três anos e meio, além das parcerias em times de praia. Nunca mais o vi. Os volantes eram o Aroldo e o Pizzo. Aroldo, mais força física e destruição. Pizzo, um volante de baixa estatura e habilidade para levar a bola aos meias.

O vestiário da Vila Belmiro era fascinante. Maior e muito melhor equipado do que o nosso, em Ulrico Mursa. Mas nada mais glamouroso para um adolescente de 15 anos do que ouvir a preleção do técnico Galo, sabendo que vai atravessar o túnel do estádio e jogar. Jogar com torcida, ainda que contra, ainda que no morde e assopra porque - oras - a Briosa recebe o carinho de todos.

Naquela noite de quarta, fizemos um primeiro tempo na defesa. Passamos o ferrolho, como dizem os mais velhos. O Santos, em contrapartida, não ajudava. Os caras estavam nervosos, sentindo-se pressionados de jogar na própria Vila. Em 1990, não existia CT. Os meninos treinavam no antigo Campo do Chico Guimarães, onde hoje é o Centro de Treinamento ou no campo do 2º BC, do Exército, em São Vicente. A Vila era distante mesmo.

Eu esperava por aquela noite e estava no máximo da concentração para inutilizar o medo. Parecia hiperativo, enquanto tranquilizava a defesa. O Santos não assustava. Alguns chutes, todos de fora da área, geralmente em cima de mim, no meio do gol. Um ou outro cruzamento sem sustos.

Até que eles ganharam um escanteio do lado esquerdo do ataque. Escanteio com a bola bem alta, na marca do pênalti. Um dos gêmeos rebateu mal e a bola sobrou para o atacante Marcelo, com quem havia jogado no Vasco da Gama. De direita, na entrada da pequena área, ele me matou: 1 a 0.

Daí em diante, ficamos mais fechados ainda. A torcida pegava no pé do moleques do Santos, com vaias e xingamentos, o que facilitava nossa vida. Talvez uma premonição do que seriam aqueles anos de pindaíba. Salvo aquela defesa no segundo tempo, só em outra ocasião que ouvi o grito da torcida quando uma bola passou perto do gol: uuuuuuuuuuuuuuuuuhh!!! Ensurdecedor e indescritível prazer.

Perdemos por 1 a 0, mas saímos com a sensação de que vencemos. Calamos os rumores de que seríamos goleados. Um time formado por moleques de Santos e São Vicente, muitos de escolinha de clube, outros de times de escola, vários da praia. Época que empresário só existia no profissional; Juan Figer e olhe lá.

Depois do banho e do lanche, fomos para a arquibancada ver o jogo principal. Cadeiras, e não o piso duro e gelado da arquibancada, para testemunhar Santos 3 X 3 Internacional de Limeira. No Santos, me lembro que dois gols foram marcados pelo zagueiro Camilo, um espigão de mais de 1,90 metros, nascido em São Vicente. E, no ataque, jogou um ponta-esquerda, também daqui, mas contratado junto ao Naviraiense, de Mato Grosso do Sul. O nome dele era Edson Ampola. Como a torcida o xingou naquela noite.

Parei de jogar futebol como atleta aos 18 anos, justamente quando treinava no Santos. Era mediano, na melhor das hipóteses. Não vou a um estádio há quase um ano. A última vez, para ver a Portuguesa Santista vencer o Campeonato Paulista da Quarta Divisão. Foi a única vez que levei minha esposa Beth a um campo de futebol.

O futebol ainda é o primeiro amor, que se manifesta nas peladas de futebol society, nas resenhas pós-jogo, nas conversas com meus alunos que começam no Jornalismo esportivo. Pouco na TV, porque os times brasileiros ficaram chatos demais.

Mas aquela quarta-feira à noite, vestindo a camisa da Briosa, foi o beijo mais intenso de um casamento que a memória depositou nas gavetas mais carinhosas.

Obs.: Texto publicado no site Juicy Santos, em 15 de junho de 2016.


quarta-feira, 26 de julho de 2017

A gritadeira



Silvia Maritani*

Minha janela fica de lado para a avenida Afonso Pena, em Santos, de forma que - se eu coloco a cabeça para fora ou sento numa banqueta meio de lado -, consigo ver a avenida e sua movimentação. Às vezes, não se faz necessário olhar no relógio; me oriento, a maior parte das vezes, pelo barulho dos carros, ônibus e motos que transitam por aqui.

No dia da greve de ônibus desse ano, cheguei muito atrasada ao trabalho. Normalmente percebo que estou atrasada quando ouço muito barulho e adiantada quando ouço só os pássaros, que acordam bem cedo. Nesse dia, nem os pássaros eu ouvi, parecia até que eu tinha me teleportado durante a noite para uma cidade de interior.

Aos domingos, quando a preguiça de estar apenas um dia livre em casa me impede de sair para a rua, sento e olho pela janela. Vejo as outras tantas janelas do prédio ao lado e, se for cedo demais, dois gatos que moram nos andares de baixo. Mexo com eles, um é mais bobo do que o outro e fica procurando quem está fazendo o barulho. Talvez não seja bobo e sim, meio surdo, de qualquer forma me divirto dando bom dia aos gatos.

O mais esperto me olha nos olhos na hora. Aqueles olhos amarelos gigantes. Os dois são lindos e fico feliz por serem meus vizinhos; assim, mato um pouco a vontade de ter gatos, que me dão alergia, mas não cansam de aparecer na minha vida, principalmente os laranjas e amarelos.

Saio da janela apenas na hora da gritaria, quando a dona do gato que é meio bobo (acho que agora entendo porque ele é surdo) acorda e começa a esbravejar que sei lá quem de sua família é um grande vagabundo. Todo o domingo, na mesma hora, o cara é o maior vagabundo do universo inteiro.

Nunca vi essa vizinha, mas sua projeção de voz é admirável. Aposto que todos escutam seu discurso e ela o faz sempre no mesmo dia e na mesma hora, provavelmente para todos escutarem mesmo.

Saio da janela porque os gritos me incomodam. Vou tomar banho ou qualquer coisa que abafe os gritos dela. Espero que ela goste muito do rapaz e, por isso, grite para incentivá-lo, o que talvez acabe dando o efeito meio bobo nele, que às vezes responde, mas sua voz chega baixa em minha janela.

Essa vizinha, que nunca vi pessoalmente e não sei suas intenções, muito menos sua história de vida, me ensina todos os dias a como não tratar a minha família. Eu poderia morar em qualquer outro lugar, mas acabei parando na janela ao lado da vizinha que grita, nervosa com o vagabundo e promete chamar a polícia.

* Esta crônica nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu em julho deste ano, no Lobo Estúdio, em Santos.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Saudades


Imagem ilustrativa 

Betty Watanabe*

Numa dessas tardes de outono ensolarada, mas com um pouco do ventinho gelado da brisa do mar, 18 de abril, começou a sua queda, parte por parte.

O desaparecimento dele vinha sendo previsto desde a última tempestade de final de dezembro. Suas sementes encheram a calha, inundando toda a parte de cima do sobrado.

Senti na pele o desespero quando você vê suas coisas molhadas. Senti medo dele desabar sobre nosso lar devido ao grande aborrecimento que nos causou e à chance de uma ventania mais forte.

Com tudo preparado, chegou a hora fatal. Um a um, a cada galho quebrado, um sentimento de perda, de tristeza, visto que participou de vários natais de nossas vidas, além de ter sido plantado por minhas mãos.

Era o cartão de natal da época, imponente, todo reto, mais ou menos 22 metros de altura. Quando iluminado, era visto por todos os ângulos e por olhares mais longínquos. Sinalizava o sobrado verde de esquina.

Para meu consolo, deixou duas heranças: o de 1,50m de altura, que será plantado ao lado de seu tronco, hoje mesa para os pássaros que aqui chegam sedentos de frutas. E o mais novo, com pouco mais de 5cm, que daqui alguns anos substituirá a plantada agora.

O visitante mais frustrado, o carcará, avistava suas presas de tempos em tempos, do alto desta árvore exótica. Deve ter perdido seu ponto de apoio. E o que dizer da vizinhança e dos transeuntes, que paravam para apreciarem com dó a sua queda, musicada com o som fúnebre da moto serra?

Que saudade do meu pinheiro natalino. A casa parece pelada, sem sua presença verdejante a brilhar.

* Betty Watanabe é presidente da Academia Itanhaense de Letras.


A janela do segundo andar



Tathiane Valério*

Da janela do apartamento, o dia começa com sol entre nuvens, mas vai esquentar, é o que o ar indica. Pessoas saem de casa, andam pelas ruas, não se falam, somente se cruzam, podem até conhecer um ao outro, por fazerem o mesmo caminho todos os dias; entretanto, não se cumprimentam.

O volume de pessoas e carros na rua aumenta de acordo com as horas, e o sol esquenta na mesma proporção. Do segundo andar, ouço o barulho dos equipamentos da academia, que fica embaixo do prédio. Quando caem no chão, sempre tenho a impressão que alguém bateu a cabeça.

Os carros e ônibus que passam pela avenida caem no mesmo buraco todos os dias. Será que eles esquecem que ali tem um buraco? Na direção do buraco, há uma banca de jornal, muitos carros param e o jornaleiro entrega o jornal sem o motorista sair do carro, como quem compra um café. Outros param somente para bater papo.

Todos os dias, por volta das 11 horas, a senhora de meia idade volta da academia e eu ainda acordando. Um senhor aposentado passeia com seu cãozinho pelo canteiro central da avenida; ele e muitos outros.

O “segurança” da locadora de DVDs, extinta pela tecnologia, ainda cumpre seu horário todos os dias como quem guarda o banquinho do canteiro. Pessoas atravessam a rua correndo para não serem atropeladas.

Do outro lado da avenida, uma ambulância pede passagem, os motoristas demoram em tomar uma decisão, enquanto outros aproveitam o caminho da ambulância pra seguir viagem.

Um dia aparentemente tranqüilo. Deixei, então, a janela entreaberta e fui tomar um banho. Logo que entrei no chuveiro, ouvi barulhos, parecidos com bombinhas, tiros, nunca sei identificar ao certo. Entretanto, não acreditei que fossem, por se tratar de uma avenida movimentada, imagina...

A curiosidade tomou conta do meu pensamento. Se saísse correndo para olhar, molharia todo o chão. Sem muito pensar, estava abrindo a janela, enrolada na toalha, com a certeza de que não era nada.

A imagem que vi quando abri a janela era de um homem todo de branco, parecia um açougueiro, caído no chão, o sangue já aparecia. Olhei ao redor procurando pistas, como Sherlock Holmes, enquanto as pessoas se aglomeravam. Alguns apontavam, como que mostrando por onde foram os suspeitos. Li nos lábios das pessoas que eram dois indivíduos em uma moto. A polícia estava chegando e pessoas brotaram da terra, como erva daninha. A polícia conteve a multidão.

— Será que o homem ainda está vivo?- ouvi alguém dizer.

A ambulância chegou e levou o homem baleado. Eu voltei para o meu banho e depois sequei o chão. No telejornal local, veio a notícia: o homem faleceu dentro da ambulância.

Obs.: Este texto nasceu do curso "Crônica: o amor pela vida cotidiana", que aconteceu nos dias 10 e 12 de julho, no Lobo Estúdio, em Santos.


terça-feira, 4 de julho de 2017

O remédio da próxima página



Marcus Vinicius Batista

Estava há dois meses sem escrever. Ainda sou incapaz de detectar a fonte deste comportamento, mas tenho minhas desconfianças. Desconfio que tenha relação com uma percepção de papéis. Meu papel e o papel da literatura.

Nestas oito semanas de abstinência, cheguei a ficar incomodado com o fato de não produzir um texto sequer, exceto uma contracapa de livro. Cheguei a encarar como uma espécie de paralisia, algum tipo de transtorno que padecesse de tratamento. Estava, segundo este olhar, à frente da porta da depressão literária.

A reflexão sobre a angústia que me acometia me levou a uma resposta tão iluminadora quanto uma notícia de cura. Eu havia sido vítima de um falso diagnóstico. Erro meu. Enxergava apenas uma parte do quadro, olhava para o que seria um sintoma, quando deveria ter visto a etapa de um processo contínuo de metamorfose.

Se passei dois meses sem escrever, atravessei dois meses lendo como poucos, como em poucas fases de minha vida. Li cerca de dez livros no período, revisei e editei - ao lado de minha esposa Beth - duas obras. Reforcei o hábito de carregar um livro comigo para todos os endereços e os mantenho espalhados por todos os cômodos do nosso apartamento.

O livro de contos para as viagens de ônibus. O romance para as esperas na sala dos professores, antes de dar aula. O livro de banheiro. O livro para embaralhar os olhos antes de dormir e prometer a retomada de páginas no dia seguinte. O livro de Psicologia para observar o futuro que se avizinha na linha de vida profissional.

Livros são, para mim, a melhor invenção humana. Livros abriram minha cabeça, me ajudaram a entender melhor quem eu amo, a compreender e conviver com quem tolero, a sobreviver diante das minhas maldições, a ser um profissional mais habilidoso, técnico e competente.

Livros me lembram - todo o tempo - o quanto precisamos ser sensíveis numa tempestade de excessos, inclusive de informações, que nos induz a confundir achismo com argumento, debate com ganhar a conversa, liberdade de expressão com exercício de intolerância, diversidade com maniqueísmo.

Não consigo passar um dia sem ler. É feito o atleta que para de se exercitar e sente os efeitos químicos em seu organismo. A leitura me conforta, me anima, me descansa, me norteia, me transporta, me faz pensar e sentir.

Ler me oferece uma colherada ou uma refeição deste caldeirão de emoções e sentimentos que representam a minha relação de amor e gratidão com o livro.

Mesmo com esta declaração de amor, preciso fazer uma confissão: não sei - com honestidade - se a literatura salva o homem. Mas sei que a literatura - na escrita e na leitura - consegue me manter um homem saudável. É a boia onde me agarro neste mar selvagem chamado vida cotidiana.